O serviço de assistência domiciliária:
origem, funções e a inserção da Odontogeriatria
Mirtes
Helena Mangueira da Silva Dias
Mestre em Gerontologia pela Pontifícia Universidade Católica -
São Paulo; Especialista em Odontogeriatria pelo Conselho Federal de Odontologia;
Professora convidada - ABENO - especialização em odontogeriatria
(mirteshdias@bol.com.br).
Suzana Carielo da Fonseca
Doutora e Mestre em Lingüística Aplicada e Estudos da Linguagem
pela Pontifícia Universidade Católica - São Paulo.
Como Publicado na Revista da SBGG 2009
3(3):138-145,ISSN 1981-8289
Sabe-se que em muitos países e
no Brasil, em especial, há um movimento em direção à
implementação da "assistência domiciliária"
na oferta de serviços de saúde prestados aos cidadãos.
O objetivo deste artigo é problematizar esse movimento e os seus efeitos
na promoção da saúde dos idosos.
Palavras-chave: Domicílio, Pacientes,
Idosos
Key words: Home, Patients, Elderly
INTRODUÇÃO
O aumento da população idosa no mundo é dado que chama
a atenção de pesquisadores e gestores (públicos e privados),
inclusive no Brasil. Os últimos dados estatísticos mostram que
7% da população brasileira (algo em torno de 14 milhões
de habitantes) é idosa¹.
A Organização das Nações Unidas (ONU) estima que,
em 2025, esse número se encontre próximo de 33 milhões,
o que representará 15% da população total do país.
Ao contrário dos países desenvolvidos, onde o aumento da expectativa
de vida resultou de melhoria das condições de vida da população,
o Brasil enfrenta uma realidade diferente, isso porque "nos países
em desenvolvimento, incluindo o Brasil, essa mudança foi brusca e despreparada"².
Deve-se indagar, portanto, sobre como o Brasil poderia se estruturar devidamente
- em termos de políticas públicas - para enfrentar o desafio da
longevidade. As alterações bio-psico-sociais associadas ao envelhecimento
repercutem e criam demandas que, sem permitir demora, necessitam ser acolhidas
e geridas nos campos social, político, econômico e da saúde.
Considerando o campo da saúde especificamente, sabe-se que, de maneira
geral, as internações hospitalares são mais freqüentes
quando se trata de idosos, acarretando um alto custo no atendimento. A assistência
domiciliária configura-se, no âmbito dessa problemática,
um caminho alternativo. Essa proposta, bem como seus efeitos no atendimento
e na promoção da saúde do idoso, é o foco da reflexão
que se encaminha neste artigo.
O HOSPITAL: ESPAÇO DE INTERVENÇÃO NA DOENÇA
O hospital, no século XXI, se configura como um espaço terapêutico
e, portanto, como um instrumento de intervenção sobre a doença
e o doente. Mas, deve-se perguntar: desde quando ele se instituiu enquanto tal?
Historicamente, até a Idade Média, os hospitais não se
constituíam propriamente como lugar destinado à cura de doenças.
Nesse período, o trabalho ali realizado visava, como alerta Foucault³
(1979), a salvação da alma. Por isso, "caridade" e "indulgência"
eram os termos que definiam a ação daqueles que acolhiam, além
de doentes, peregrinos. Foi no final do século XVIII (em torno de 1780)
que eles começaram a se estabelecer como instrumentos terapêuticos
reais.
Segundo o autor³, na Europa da Idade Média, o hospital não
era concebido para curar e a medicina era, essencialmente, uma prática
não hospitalar. Antes do século XVIII, a instituição
hospitalar era espaço de separação e exclusão já
que sua função básica era recolher pobres doentes com o
objetivo de proteger os demais do perigo de contágio.
Assim, o hospital esteve, como analisa Foucault³, desarticulado do exercício
da medicina até meados de século XVIII. A intervenção
do médico na doença era organizada em torno da noção
de crise, o que implicava que ele observasse no doente o curso de manifestação
da doença para descobrir em que momento ocorria o confronto entre a natureza
sadia e o mal que acometia o paciente. Deve-se ter em conta que a experiência
hospitalar - "em que se poderia registrar as constâncias, as generalidades,
os elementos particulares, etc³ - estava excluída do ritual de formação
do médico.
A medicalização do hospital e/ou a hospitalização
da medicina (ocorrida entre 1780 e 1790) é mudança que deve ser
lida, segundo o autor³, como decorrente da necessidade de anular efeitos
negativos do hospital, quais sejam: (1) doenças que ele podia suscitar
nas pessoas internadas e que podiam se espalhar na cidade onde estava situado;
(2) desordem econômico-social de que era foco.
Na base dessa reorganização, dois processos ocorrem simultaneamente.
De um lado, a introdução de mecanismos disciplinares no espaço
confuso do hospital (e, conseqüentemente, da relação doença
x doente). Eles se fundamentam, antes de tudo, na "análise do espaço.
É a individualização pelo espaço, a inserção
dos corpos em um espaço individualizado, classificatório, combinatório"
³. Nessa medida, a técnica disciplinar envolve: controle do desenvolvimento
de uma ação, vigilância perpétua e constante de indivíduos
e registro contínuo.
De outro lado, o fator que responde pela origem do "hospital médico"
é a grande mudança no saber e práticas médicas,
que também se processa no século XVIII, com a introdução
do modelo botânico (classificatório) para se atingir a inteligibilidade
da doença: "ela terá espécies, características
observáveis, curso e desenvolvimento como toda planta" ³. Entendida
como um fenômeno natural, acredita-se que a doença resulta "de
uma ação do meio sobre o indivíduo" ³.
Note-se que será a partir da conjunção dos dois fatores
antes mencionados que os doentes serão distribuídos e individualizados
num espaço - o hospitalar - onde possam ser vigiados e no qual se fazem
registros de todas as ocorrências que lhe dizem respeito. Ao mesmo tempo,
serão modificados o ar que respiram, a temperatura do meio, a água
que bebem, de modo que o quadro hospitalar que os disciplina seja um instrumento
de modificação com função terapêutica. Nessa
perspectiva é que se medicaliza o espaço hospitalar, tanto na
sua função quanto nos seus efeitos, mudança que tem conseqüências
importantes: transforma-se o sistema de poder no interior do hospital e o médico
passa a ser o principal responsável pela organização hospitalar
(e não o pessoal religioso), razão pela qual sua presença
se afirma e multiplica até o ponto em que ele, finalmente, passa a residir
no hospital.
Aparece assim, o personagem do médico de hospital que antes não
havia. No que diz respeito ao paciente, seu punho passa a ser etiquetado para
que se possa distingui-lo, mesmo se vier a falecer. Vale dizer, também,
que nesse compromisso com a identificação coloca-se sobre o leito
uma ficha com o seu nome e a doença que porta e implementa-se um registro
geral - prontuário - (nome, diagnóstico, receita, tratamento,
evolução e etc.).
Constitui-se assim, um campo documental no interior do hospital que não
é somente um lugar de cura, mas também de registro, acúmulo
e formação de saber. O saber médico, que até o início
do séc. XVIII estava localizado nos livros, começa a ter seu lugar
também no hospital. É assim que naturalmente se chega, entre 1780
e 1790, ao nascimento do hospital terapêutico, cujas características
são semelhantes às do hospital do século XXI. É
certo que os avanços tecnológicos e a evolução da
medicina preventiva e sanitária, contribuíram para promover mudanças
significativas no atendimento hospitalar.
O HOSPITAL E O ENFOQUE INTERDISCIPLINAR
Uma das mudanças ocorridas no atendimento hospitalar que merece destaque
diz respeito à instituição do trabalho em equipe. Historicamente,
durante muito tempo, a atenção à saúde era entendida
como uma luta que seria travada contra a doença instalada e, segundo
Jacob-Filho e Sitta4:
"Para realizar essa função eram fundamentais a atuação
daqueles que soubessem reconhecer o mal, escolher os métodos para combatê-lo,
retirá-lo cirurgicamente e, se possível, formular e aplicar medicamentos
e, por fim, administrar ao enfermo os cuidados básicos para sua sobrevivência".
Em resumo, a responsabilidade por todas essas atitudes estava concentrada na
figura do médico. Com o passar do tempo, a problematização
do par saúde/doença trouxe à cena concepções
redimensionadas que exigiram que se reconhecesse que a atenção
à saúde reclamava a complementação de saberes e
fazeres, o que motivou o surgimento e/ou o desenvolvimento de áreas pouco
difundidas, porém necessárias. Assim,
"A atuação deixa de ser centralizada em um ou poucos profissionais
capazes de executar muitas tarefas e passa a ser dividida por aqueles que, por
serem responsáveis especificamente por uma área do conhecimento
e da assistência, têm condição de fazê-lo com
maior competência e eficiência" 4.
Por intermédio dessa descentralização integrada nasceu
a denominada "equipe interdisciplinar"5,6. O trabalho realizado tem
como base o compromisso com a integração, o respeito e a valorização
dos diversos saberes específicos que são colocados em relação.
A articulação desses saberes é de fundamental importância
para as tomadas de decisão relativamente aos casos atendidos. É
claro que poderão surgir diferenças, mas deverão ser trabalhadas
e resolvidas. Enfim, as vantagens de se trabalhar em equipe são inúmeras
e os resultados bastante positivos, principalmente quando se trata de idosos.
Essa linha de atendimento está em plena consonância com aquela
preconizada pela Organização Pan-Americana de Saúde (Opas),
divisão regional da Organização Mundial da Saúde
(OMS), em um relatório (1992): "a promoção de saúde
dos idosos deve estar a cargo de uma equipe interdisciplinar" 4, de maneira
a oferecer uma assistência integral ao sujeito idoso.
O HOSPITAL E O SERVIÇO DE ASSISTÊNCIA DOMICILIÁRIA
A medicalização dos hospitais e sua abertura a outros profissionais
da área de saúde representam dois movimentos bastante significativos,
relativamente ao modo como, a partir do século XX, se tem prestado assistência
especializada a sujeitos doentes. Outra transformação merece também
nossa atenção e ela esta intimamente ligada com o problema relativo
ao elevado custo das internações hospitalares: uma questão
que ganha contornos mais preocupantes quando se trata de idosos. Segundo Brito
e Ramos7,
"em todo o Brasil os dados de internação e ocupação
dos leitos hospitalares mostram que os idosos fazem uso dos recursos oferecidos
pela rede hospitalar em uma proporção relativamente maior se comparados
com outros grupos etários".
Ramos7 mostra que as pessoas idosas em hospitais gerais de São Paulo
"chegam a ocupar 20% do total de leitos e que o tempo médio em que
permanecem internadas é quase duas vezes maior que a média para
o total da população". Diante desse quadro, é evidente
a necessidade da adoção de modelos alternativos à saúde,
entre os quais é citada a assistência domiciliária.
O Serviço de Assistência Domiciliária8 teve sua origem
em 1947 no Memorial Hospital, de Nova Iorque, Estados Unidos. Logo em seguida,
em 1951, o Hospital Tenon, de Paris, França, criou o programa Hospitalización
a Domocilie. É preciso que se diga que tais serviços (e outros
similares) foram delineados por iniciativa dos próprios hospitais, em
virtude de pressões governamentais e de seguros de saúde, para
que se reduzissem gastos na assistência prestada aos doentes.
No Brasil, o Rio de Janeiro foi o primeiro estado a contar com um hospital que
oferecia serviço de assistência domiciliar 9, 10. Sob a direção
do médico Nildo Aguiar, esse Hospital forneceu os principais dados para
a criação, em 1949, do Serviço de Assistência Médica
Domiciliar e de Urgência (SANDU). Ligado, inicialmente, ao Ministério
do Trabalho, em 1967, foi incorporado pelo então denominado Instituto
Nacional de Previdência Social (INPS). Provavelmente essa foi a primeira
atividade planejada de assistência domiciliar à saúde no
país. Posteriormente, este trabalho seguiu para outros estados brasileiros,
tais como: São Paulo, Rio Grande do Sul, Pará, Pernambuco, Piauí
e Ceará.
Algum tempo depois, mais especificamente em 1968, foi criada na cidade de São
Paulo8, a Assistência Domiciliária do Hospital do Servidor Público
do Estado de São Paulo. Em 1994 foi implementado o Serviço de
Assistência Domiciliária (SAD) do Hospital do Servidor Público
Municipal de São Paulo. Vale dizer, também, que a cidade conta
com o Núcleo de Assistência Interdisciplinar (NADI) do Hospital
das Clínicas de São Paulo, criado em 1996 e com o Serviço
de Assistência Domiciliária ao Idoso (SADI) do Centro de Referência
à Saúde do Idoso do Município de Guarulhos, criado em 1997.
É pertinente lembrar, também, que a lei nº 10.424, de 15
de abril de 2002, regulamentou a assistência domiciliária do Sistema
Único de Saúde (SUS) em todo o território nacional. As
visitas domiciliares, desde então, são realizadas por equipes
multidisciplinares do Programa de Saúde da Família (PSF).
Cabe enfatizar que a assistência domiciliária é uma excelente
alternativa para diminuição do elevado custo das internações
hospitalares, porém mais importante que este aspecto puramente econômico
são os benefícios que esta modalidade oferece à saúde
do idoso. Entre eles, pode-se destacar a importância de manter o idoso
dentro do seu domicílio, pois este é visto como um espaço
próprio, que lhe é familiar, o qual pode contribuir para manter
a estabilidade de seu quadro, bem como para uma boa qualidade de vida. Estar
em companhia de sua família e permanecer dentro de seu lar têm
grande valor na preservação de sua identidade, como nos afirma
Leme e Dias8, "o ambiente exerce sobre o idoso um papel importante na manutenção
da própria identidade, podendo favorecer sua autonomia e independência",
pois para muitos deles há laços estabelecidos com os objetos,
com o ambiente e com as pessoas. Não podemos deixar de considerar, também,
que este contato favorece, ainda, seu equilíbrio biopsicossocial. Além
do mais, "a retirada do paciente idoso de seu ambiente para internação
hospitalar ou para procedimentos em centros médicos apresenta uma carga
de comorbidade que não pode ser desconsiderada" 8. Em concordância
com esta visão, as políticas de atenção ao idoso
defendem o espaço domiciliar, acreditando que este seja o melhor local
para o idoso envelhecer.
Para que se possa entender um pouco melhor como são realizados os atendimentos
domiciliares, é interessante lembrar que existem pelo menos três
modalidades implicadas em sua realização, cada uma das quais envolvendo
características e ações diferentes, são elas8: Visita
domiciliária; Internação domiciliária e Assistência
domiciliária.
RELATO DE CASO: O SERVIÇO DE ASSISTÊNCIA DOMICILIÁRIA
DO HOSPITAL DO SERVIDOR PÚBLICO MUNICIPAL DE SÃO PAULO (SAD)
O SAD teve início, em 1994, seguindo conceitos franceses e americanos,
porém com características próprias e compatíveis
com a estrutura de saúde vigente no Brasil. Desde então, até
os dias de hoje, mil pacientes já se beneficiaram desse serviço.
Atualmente, são assistidos 152 pacientes, que estão distribuídos
em todo o município de São Paulo.
A finalidade do SAD é prestar assistência a pacientes que apresentem
dificuldades totais ou parciais de locomoção. Ela é realizada
por meio de uma equipe interdisciplinar que atua conjuntamente, compartilhando
responsabilidades.
O SAD leva apoio, tratamento, medicações, coleta de material
para exames laboratoriais e resultados de exames aos idosos, disponibilizando,
ainda, pelo tempo que se fizer necessário, a utilização
de cama hospitalar, cadeira de rodas, cadeira de banho, colchão caixa
de ovo, medicações, materiais para curativos e dietas para sonda,
sem nenhum custo ao paciente. As visitas domiciliares são feitas de segunda
a sexta-feira, no período da manhã e da tarde. A cada 15 dias,
a equipe se reúne para discussão dos casos clínicos, pois
se entende que seja importante que seus integrantes participem da atuação
proposta por cada profissional.
O que se tem recolhido do trabalho realizado pela equipe, ao longo desses últimos
15 anos, é um resultado bastante positivo: o fato de o paciente permanecer
em sua residência, na companhia de seus familiares e amigos, tem mesmo
um papel importante na determinação desse resultado que, é
preciso que se diga, implica em uma recuperação mais rápida
e eficiente, tanto do ponto de vista físico quanto emocional, além
da diminuição do risco de infecções. Hoje, a importância
e a eficiência do SAD são constatadas pelos pacientes e familiares
e também reconhecida pelo HSPM como sendo a melhor alternativa de levar
saúde, proporcionando uma melhor qualidade de vida aos idosos que procuram
atendimento nessa instituição.
O SERVIÇO DE ASSISTÊNCIA DOMICILIÁRIA E O ATENDIMENTO
ODONTOLÓGICO DE IDOSOS EM DOMICÍLIO
Paralelamente à assistência prestada aos doentes em seus domicílios,
por meio dos atendimentos clínicos especializados, o SAD configura-se
também como um espaço de realização de pesquisas8:
a articulação entre teoria e prática clínica é,
portanto, problematizada. No âmbito desse compromisso, Dias11 (2005) encaminhou
uma investigação cujo objetivo primeiro foi o de levantar o perfil
de saúde bucal dos idosos assistidos pelo SAD/HSPM.
Dos 110 pacientes examinados, 63% eram mulheres e 37% eram homens, com idade
variando entre 60 e 95 anos. Nesta pesquisa, foram observadas, inicialmente
as condições gerais de saúde dos pacientes e constatou-se
que apenas 13% apresentavam uma doença sistêmica e que a grande
maioria, 87% deles, apresentava duas ou mais manifestações dessa
natureza, de forma a manifestarem dificuldades na realização das
atividades de vida diária (AVDs) 12. Por isso, foi feito um levantamento
relativo à realização das AVDs, onde se constatou que 23%
dos pacientes conseguem realizá-las sozinhos e, em 16% dos casos, há
dependências parciais (ora necessitam de ajuda, ora não). Constatou-se,
ainda, que 61% dos pacientes apresentam dependência total, o que impõe
a obrigatoriedade da realização das AVDs pelo cuidador.
Tendo em vista tal resultado, decidiu-se fazer um levantamento para analisar
a qualidade da higiene bucal, seja ela feita pelo paciente que é independente,
seja aquela feita pelo cuidador (paciente totalmente dependente), ou mesmo por
ambos. Verificou-se que, em 39% dos casos, a higienização se apresentava
precária, aceitável em 34% e boa em 27%. A porcentagem mais alta
(higienização precária) foi tomada como um indicativo bastante
evidente de que havia necessidade de intervenção especializada
e promotora de mudanças. Intervenção que deveria incluir
tanto cuidadores quanto pacientes, uma vez que são necessárias
a conscientização e a motivação do paciente em relação
à higiene oral para que possa haver mudanças de hábitos
e atitudes1.
Note-se, entretanto, que falar em "estado de saúde bucal"
implica um universo muito mais amplo do que apenas higiene bucal. Razão
pela qual, na pesquisa realizada11, atentou-se também para a presença/ausência
de dentes nos idosos sujeitos da investigação. Constatou-se que
25% eram dentados (possuíam dentes) e 75% edentados (não possuíam
dentes). Dos 25% dentados, avaliaram-se o estado das gengivas (periodonto) e
a conservação de dentes, relacionando os achados com a necessidade
de tratamento, obtendo os seguintes resultados: 11% dos sujeitos pesquisados
apresentavam dentes e gengiva saudáveis, não necessitando de tratamento,
ao contrário, 53% necessitavam tanto de tratamento periodontal quanto
restaurador e 36% necessitavam apenas de tratamento periodontal.
Quanto aos idosos edentados, 65% faziam uso de próteses totais (dentaduras)
e 35% não as utilizavam. No que diz respeito aos primeiros, decidiu-se
avaliar a adaptação das próteses e concluiu-se que 35%
necessitavam de troca, 46% precisavam de reembasamento, que consiste em um preenchimento
interno da prótese com material resinoso tornando-a mais adaptada, e
19% apresentavam adaptação aceitável.
Os resultados obtidos após a análise das condições
de saúde bucal desses idosos revelaram uma alta porcentagem de cáries
e gengivite, um alto número de próteses desadaptadas e aproximadamente
um terço com higiene bucal precária. Apesar de esses idosos não
apresentarem um estado de saúde bucal satisfatório, na quase totalidade
deles, a alimentação era realizada pela boca, ou seja, por via
oral (93%), de maneira que a mastigação e a deglutição
se encontravam prejudicadas. Apenas 7% do total se alimentava por sonda. Essa
informação reforça a importância da necessidade de
se ter uma condição bucal saudável, de modo a permitir
a adequada mastigação e deglutição, resultando em
um melhor aproveitamento dos alimentos pelo organismo.
A presença de dentes ou de dentaduras é fundamental para o processo
mastigatório, para que haja uma formação adequada do bolo
alimentar e posterior continuação do ciclo digestivo. Como se
sabe, uma nutrição adequada é necessária para a
obtenção de uma boa saúde geral e, a partir do que se discutiu,
ela está em relação direta com o bom funcionamento dos
dentes e a boa adaptação das próteses. Porém, não
se pode restringir a vida à existência biológica, pois o
conceito de saúde transcende o individual biológico, ele envolve
também a vida social do indivíduo. Afinal, ter dentes em mau estado
de conservação, não usar dentaduras, ou mesmo usá-las
com adaptação deficiente, poderá produzir efeitos negativos
na relação familiar, no ciclo de amizades e, de um modo geral,
no convívio social.
Conclui-se a partir do que foi exposto, que as dificuldades de locomoção
criam um grande problema para pacientes que necessitam acessar o serviço
de saúde, e que o direito fundamental do cidadão a esse acesso
é o que se conquista com o atendimento domiciliário.
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Última atualização:
04/03/2010